domingo, 20 de fevereiro de 2011

Estórias e segredos de Roberto. I

E o telefone tocou de novo e de novo. E ele atendeu nervoso, procurando palavras que a fizessem parar de ligar, a vontade de jogar seu celular longe e fugir de tudo que lembrasse ela era maior a cada dia que passasse, sua voz lhe embriagava o estomago, o perfume que ela usava já não parecia ter mais um aroma doce, era mais uma sentença, sua memória reprisava tudo que o já teria passado com ela. As cores já eram escuras, a comida já era de rotina arroz e feijão, para o vinho não se tinha mais paladar, se antes aguçado hoje enojado. Não existia mais emoção em sua vida. Então ele atendeu...

Ele :
O que você quer?
Ela:
Você não me respondeu ontem onde vamos jantar hoje. Preciso saber, para ver o que vou usar.
Ele:
Não. Não vamos jantar fora hoje, tenho muito que fazer, e não to com cabeça para nada.
Ela:
Mais amor, hoje é o nosso aniversario de casamento. Você se lembra?
Ele:
Já lhe disse to sem cabeça, eu pago suas roupas de marca, seus sapatos caríssimos, você tem um cartão, não era o que você queria, vá e jante você. E vou chegar tarde, não me espere.

E desligou o telefone.
A vida de Roberto para com Ana não tinha mais razão, para Ana era só estresse do trabalho, ela acreditava que aquilo ia passar, ela queria acreditar que tudo ia melhorar. Mais não para Roberto. Ele já não tinha mais vontade de voltar para casa, quando o relógio batia marcando 21h00min sua cabeça começava a doer, seu estomago revirava, seu corpo pesava, e ele tinha uma vontade enorme de correr para um bar e encher a cara antes de chegar em casa, para aturar sua esposa, sim sua esposa. Roberto nunca foi de bagunças, sempre foi homem de família, responsável, tinha em mente uma idéia de homem para uma mulher. Prestativo. Ele sempre amou muito todas as mulheres que passaram em sua vida, sua primeira experiência sexual, seu primeiro amor, sua primeira paixão, seu primeiro fora, sua primeira noiva, sua primeira mulher. Desde o inicio Roberto quis e se empenhou para ser e dar o melhor para a mulher que ele escolhesse para casar. Pois dentro da casa de seu pai, ele viu o contrario, cresceu vendo sua mãe apanhando de seu pai, seus irmãos engravidando namoradas e as largando, hábitos que ele escolheu não levar. Coisas que ele presenciou, tragédias que sempre quis poder ter feito alguma coisa para que não tivessem acontecido. Que foram quando sua mãe e sua irmã foram mortas em um acidente de carro, que seu pai estava dirigindo bêbado. E que foi ai que ele resolveu ser um homem, não um moleque.
Mas algo tinha acontecido em sua vida, ele não via mais Ana como sua esposa, não a olhava mais no olho, não queria mais saber como ela estava, se passar bem ótimo, se não ótimo também. Ana sempre foi moça preguiçosa, era filha mais nova, então nunca teve hábitos de ajudar em casa, sempre era a protegida do pai e da mãe. Então ao casar Ana não levou muito da casa de seus pais para a dela, o Maximo que ela sabia fazer era uma bela omelete com suco de laranja bem doce, pão com geléia de morango. Almoço nem pensar, Ana não mexia com comida, muito menos janta. Não era prestativa em lavar roupa e louça, a casa se não tivesse empregada o chão teria que se limpar sozinho, a roupa se passaria sozinha e a cama se arrumaria sozinha. Mas Ana não saiu de casa por inteira crua, tinha uma coisa que ela sabia fazer, e que fazia com um sorriso no rosto sem nunca reclamar, compras. Para Roberto isso não era lá uma habilidade e sim um defeito, pois Ana fazia despesas em mercados de quinhentos reais para o mês, e somente para os dois, fazia compras no shopping de duzentos reais em pertences para os cachorros. Roberto bancava tudo, nunca reclamou, sempre fazia os gostos de sua amada, quando via o olho dela brilhar ao ver alguma coisa ele comprava, nunca havia sacrifício que ele não fizesse por ela, se precisasse trazia a lua para ela. Só para vê-la feliz. Mas isso foi desgastando. Ela não era mais um motivo para viver, ela não fazia mais seu coração bater forte, ele já não queria se esforçar para pagar por ela, pagar suas roupas, seu cabelo, suas vontades. Então sem mais fome de vida, começou a procurar fora o que não encontrava dentro de casa, ele não queria só sexo, queria mais, queria viver intensamente, queria ser pobre, poder viver de amor e de trocados, não de hora extras e dores de cabeça. Foi quando começaram as mentiras, as reuniões até mais tarde, as viagens a trabalho, até que não precisasse mais dar satisfações. Roberto começou a viver, não se importava em pagar as fortunas que Ana consumia pelo cartão de credito, não fazia mais hora extras, não voltava mais para casa para o jantar, chegava em casa só meia noite. E assim foi levando, sua consciência já não pensava em saber que traia sua mulher, já não era um pecado era uma travessura, eram duas pessoas aproveitando a noite, eram duas historias de mundos diferentes, era só sexo, comida, risadas e bebidas. Roberto nunca passava seu numero de celular muito menos marcava o das moças, mais mesmo ele tendo quantas moças ele quisesse, em particular tinha uma, não era moça nova que queria bagunça, era mulher independente e casada, assim como Roberto. Carolina, moça dos olhos verdes, cabelos pretos, sorriso que matava todos os homens, um rosto angelical, voz serena mais firme e um corpo macio e claro que Roberto não se cansava de apreciar. Roberto nunca conseguiu chamar atenção de Carolina, ela o notava por velo todas as noites em um barzinho que tocava blues em outra cidade, em Longtow. Carolina trabalhava de garçonete de noite no bar e de dia em um hospital para poder pagar as contas em casa, pois seu marido já tinha operado três vezes do coração e já não agüentava mais, se houvesse outra operação Carlos seu marido não agüentaria, e ela tinha duas filhas pequenas. Então ela não tinha muitas escolhas. Mais Roberto não se cansava em ir todas as noites só para vê-la, ele conseguiria qualquer mulher do bar, pois era bonito, homem de 30 anos, olhos azuis claros, semblante calmo e límpido, cabelo castanho claro, pele pouco morena, mas por mais que tivesse a moça mais bonita, não se comparava a Carolina, ela o deixava impaciente, no trabalho sua mente era voltada para Carolina, em casa Carolina, na rua Carolina, e seu momento de mais pura felicidade era no final de seu expediente. Quando ele entrava no carro tirava sua aliança, deixando uma marca funda dela, arrumava seu cabelo, e ia para o bar quando se deparava com sua moça dos olhos verdes. Uma noite Roberto resolveu não dar bola para nenhuma mulher, somente beber um pouco, escutar blues e ver Carolina. Seu cheiro ao passar por ele era como um mar de rosas, rosas brancas, rosas vermelhas, azuis, eram todas juntas, mais suaves e que faziam ele paralisado. Era o mais próximo que conseguia chegar dela, os homens do bar já notavam o anseio que corria nas veias de Roberto, a garganta seca por mais que seu copo fosse cheio, suas pernas impaciente e seu olhar que entregava. Por isso Roberto sabia tanto de Carolina, os boatos eram tantos que chegavam até os ouvidos dele, mais nunca aos de Caroline, nunca foi mulher de fofoca, ficar tricotando e fuxicando da vida alheia, era mulher certa, que se fosse para trabalhar, somente trabalhava.Uma noite em particular, o bar se encontrava vazio, como não de costume. Então Roberto resolveu tentar conversar com Carolina. Tentando de todas as maneiras chamarem a atenção dela, mas não tendo nenhum sucesso. Foram passando os dias, e conseguir que Carolina o notasse acabou que sendo uma questão de honra. Ele não agüentava mais de vontade de pegar em suas mãos, olhar em seus olhos e poder um dia chamá-la de sua. O tempo foi passando, Roberto foi se perdendo no serviço, pois nada mais prendia sua atenção, teu semblante já não era mais calmo, e sim de impaciente, de infeliz. Em casa já não dormia na cama com Ana, ficava até de madrugada acordado, o sexo nas ruas já não eram prazerosos, a vida que ele pensava que estava boa já não o satisfazia, o ar já estava poluído, suas roupas já não o vestiam, ele estava vazio, nu para ele e para todos. O bar em Longtow já não era freqüente, pois sabia que La encontraria Carolina, e não queria que ela vivesse como ele, uma mentira, uma traição. Roberto chegou em uma fase que não queria mais trabalhar, comer, amar, viver. Entrou em profunda depressão. Quando sua vida tomou um rumo que ele já esperava.

continua...

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